Entrevista a Diogo da Silveira no Jornal de Negócios

1 Junho, 2015

Numa altura em que se discute tanto a reindustrialização, o sector da pasta e do papel mantém-se como um case study. Quais as razões deste sucesso?

O sucesso obtido pelas empresas portuguesas de pasta e de papel é resultado dos fortes investimentos realizados ao longo dos últimos anos, nos melhores e mais avançados activos industriais disponíveis a nível mundial, na aposta permanente na inovação, numa estratégia consistente de internacionalização e na gestão florestal de forma responsável.
Esta estratégia consistente tem produzido, nos últimos 50 anos, resultados muito positivos. Deixe-me dar-lhe dois exemplos: o actual processo referência a nível mundial de produção de pasta para papel (kraft) foi exactamente desenvolvido em Portugal. Um segundo entre muitos outros exemplos que poderia dar, foi uma empresa portuguesa a primeira a nível mundial a pagar mais pela madeira certificada, garantindo assim um forte incentivo para a melhoria das práticas de gestão florestal.

 

Há condições naturais que expliquem esse sucesso?

De facto Portugal tem condições naturais (edafoclimáticas) que lhe permite ter florestas de grande qualidade: seja de pinheiro, sobreiro, eucalipto e outras espécies. Infelizmente ainda só aproveitamos uma parte pequena das fantásticas condições que o país oferece. Portugal tem na floresta uma riqueza comparável à que outros países encontram no petróleo ou no ouro. Diria que a floresta é o nosso petróleo verde.

 

Qual o contributo do sector para a economia e a balança externa?

A fileira florestal representa cerca de 10% das exportaço?es nacionais, com um saldo comercial positivo de 2,2 mil milho?es de euros. É o terceiro sector mais relevante das exportações portuguesas, com o maior Valor Acrescentado Nacional. Este é o impacto global, a nível nacional, mas não nos podemos esquecer que esta indústria, porque está presente sobretudo fora das grandes cidades é um forte motor de desenvolvimento rural, contribuindo para retenção de populações no interior e para a redução da desertificação.

 

O processo de internacionalização de algumas empresas  não tenderá a atenuar esse peso, uma vez que passarão a produzir localmente noutros países?

Não. Na verdade as empresas portuguesas que têm avançado com investimentos noutros países têm ao mesmo tempo reforçado os seus investimentos em Portugal.
As empresas que actuam no sector da pasta e do papel só não investem mais em Portugal, porque não existe madeira suficiente para alimentar as suas unidades de produção.
Dou-lhe dois exemplos: a fileira do pinheiro e do eucalipto têm todos os anos de importar milhões de metros cúbicos de madeira. São milhões de euros que ficam noutros países e empregos que não são criados em Portugal.
Temos de ver o que outros países estão a fazer. Repare que uma das primeiras medidas que o novo primeiro ministro da Finlândia anunciou foi definir um plano estratégico para aumentar fortemente a mancha florestal.

 

A montante da indústria, o sector tem também o forte peso na exploração florestal. A jusante, passou da produção de pasta para a produção de papel. Quais as razões desta integração vertical?

A integração vertical é um dos segredos da competitividade das empresas portuguesas e um dos maiores contributos para uma gestão sustentável da floresta.
Por outro lado esta integração permite garantir as melhores práticas de gestão, nomeadamente das florestas.
As empresas portuguesas de pasta e de papel vendem a quase totalidade dos seus produtos nos mais exigentes mercados mundiais, onde são necessárias as mais exigentes certificações ambientais. A integração é também uma forma de garantir que estas boas práticas se estendem a toda a cadeia de abastecimento.

 

A ligação das empresas de pasta a papel à floresta, e em particular às plantações de eucalipto, criaram uma má imagem pública do sector, em termos ambientais. Os ambientalistas têm razões nas suas críticas?

Existem muitos mitos em redor da cultura do eucalipto que necessitam ser explicados. Repare que uma das críticas que é feita ao eucalipto é que este contribuiu para uma degradação da terra. Ora nós gerimos florestas há mais de 50 anos e na verdade temos assistido à renovação das áreas de eucaliptal com novas arborizações com a mesma espécie e o que se verifica é que os novos eucaliptais implantados em antigas áreas desta espécie estão a produzir com melhores produções.
Finalmente é importante que se saiba que a indústria de pasta e de papel é responsável pela gestão da maior mancha florestal que existe em Portugal e que tem a capacidade de absorver todo o dióxido de carbono produzido por todos os carros que circulam em Portugal.
Ao nível ambiental é também importante destacar o trabalho que tem vindo a ser feito no sentido de produzir cada vez mais com cada vez menos recursos. Desde 2002 conseguimos reduzir até 67% as emissões de CO2, cortar até 57% o consumo de água e baixar até 10% o consumo de energia, que como sabemos tem um custo muito elevado e penaliza a balança comercial do país. Este caminho só foi possível graças aos elevados investimentos que foram levados a cabo.

 

Isso não obriga o sector a ter uma política activa de responsabilidade ambiental mais agressiva que muitos outros sectores?

O sector adoptou há muito as melhores práticas internacionais. A totalidade da floresta gerida pela industria tem as duas mais exigentes certificações internacionais. Não há muitos outros sectores que tenham este reconhecimento ao mais alto nível de boa gestão ambiental. Reconheço que a industria de pasta e de papel tem de saber comunicar melhor o que fez e está a fazer. Existe um gap entre o que é feito e o conhecimento geral.

 

No campo da investigação florestal, que progressos têm sido feitos? Há inovações e descobertas de origem portuguesa?

Sim, tanto ao nível da floresta, como ao nível da produção industrial. Portugal está na dianteira da investigação no sector. Ao nível da prevenção de incêndios temos vindo a trabalhar com o MIT com muito bons resultados. Também é de destacar a evolução que se tem vindo a regustar na investigação clonal, permitindo aumentar a produtividade. Este é um ponto muito importante: cada hectare de terra tem de permitir obter mais metros cúbicos de madeira de modo a aumentar o rendimento dos produtores.

 

Mais recentemente, as empresas do sector começaram a diversificar para a produção de energia. Por que razão?

Não é uma actividade recente. A produção de pasta de papel implica a produção de energia verde (através de utilização de biomassa). É uma fonte de energia renovável que há muito é partilhada pelas empresas do sector com o país. Esta actividade tem um impacto muito positivo na balança comercial uma vez que permite reduzir a dependência e o custo associado à importação de combustíveis fósseis.

 

Qual a posição relativa de Portugal no mercado mundial de pasta e de papel?  Quem são os principais clientes e quais os principais países competidores?

Ao nível da produção de pasta, Portugal surge como quarto país da Europa. Ao nível do papel é líder europeu na produção de papéis para impressão e escrita. É uma posição ímpar que garante a criação de centenas de postos de trabalho e a manutenção de vários milhares de empregos.

 

Dentro do filão da pasta e do papel, quais os produtos de maior sucesso? Que tipos de papéis são produzidos em Portugal?

A pasta de eucalipto portuguesa é grande qualidade e muito reconhecida nos mercados mais exigentes. Ao nível do papel, de impressão e escrita e tissue (papel higiénico, guardanapos, etc) a nossa posição é também de forte liderança em vários dos mais exigentes e importantes mercados.