Desenvolvimento da economia circular precisa de políticas públicas e incentivos financeiros

7 Março, 2018

CELPA leva caso de sucesso da indústria da pasta e papel a workshop de programa europeu de desenvolvimento da economia circular.

 

A CELPA – Associação da Indústria Papeleira esteve representada no workshop internacional da acção SCREEN – Synergic CirculaR Economy across European RegioNs no passado dia 22 de Fevereiro na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia (REPER) em Bruxelas, a convite da CCDR-C (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro).

Num painel moderado por Inês Costa, coordenadora do Plano de Ação para a Economia Circular português e que contou com a participação de Jarno Laitinen, project manager do Programa de Demonstração de Terras Contaminadas finlandês, Brend Janson, do ZENIT – Centro de Inovação e Tecnologia alemão e Carlos Amaral Vieira, director geral da CELPA, foram debatidos os entraves ao desenvolvimento da Economia Circular na Europa.

Para explicar a relação estreita entre a indústria da pasta e do papel e o conceito de circularidade da economia, Carlos Vieira destacou quatro atributos do papel que não existem em outros materiais: “é uma indústria baseada numa fonte renovável e natural. E o produto gerado – o papel – é reciclável e biodegradável. Isto não existe em mais nenhum material”. O responsável da CELPA acrescentou ainda que “a indústria da pasta e do papel, que liga floresta ao papel, é um paradigma de circularidade: sempre reutilizou as suas correntes processuais internas, fechando ciclos e circuitos, e valorizou uma parte muito significativa dos seus resíduos. Se não o fizesse, não seria viável economicamente e ambientalmente. Viável e também sustentável”.

A acrescer, várias fases do processo produtivo de pasta e papel geram biomassa florestal como a casca das árvores, lamas, cinzas ou areias que podem ser reutilizados em outros processos de produção da própria indústria papeleira ou por outras indústrias, como é o caso da construção civil e seus materiais, do sector mineiro, da agricultura (na correcção do pH do solo, por exemplo), pellets ou argamassas de vários tipos. A investigação científica acompanha este potencial, havendo diversas tecnologias em desenvolvimento que exploram novas utilizações.

A própria indústria da pasta e do papel em Portugal tem várias centrais de biomassa que são responsáveis por cerca de 7% de toda a energia eléctrica gerada em Portugal, energia esta que tem como fonte casca de eucalipto, outra biomassa florestal e, também, o licor negro gerado num dos processos de produção de pasta.

No entanto, existem alguns entraves à reutilização destes resíduos/subprodutos. Muitos sectores que poderiam utilizar estes materiais são cépticos relativamente ao seu desempenho, qualidade e reputação, além de ignorarem o quanto têm a ganhar com essa incorporação. Por outro lado, existem limites ao nível regulatório que impedem a reutilização de resíduos industriais, o que desencoraja a busca por parceiros e aplicações. As próprias entidades ambientais que aprovam esta reutilização de resíduos impõem excessivas, impraticáveis e sobreprudentes limitações à passagem do estatuto de resíduo a subproduto.

Uma relação mais próxima entre parceiros é, por isso, necessária, sendo fundamental, para Carlos Vieira, haver uma definição correcta das especificações que um subproduto deve ter e, também, dos testes por que devem passar para serem aceites. Mais do que disponibilizar um subproduto para ser reutilizado, importa estabelecer laços e relações num verdadeiro negócio duradouro.

Na perspectiva de cooperação regional ao nível europeu, Carlos Vieira considera que se deve desenvolver e partilhar investigação e inovação, benchmarking, experiências, engenharia e demonstração de processos. “Tudo isto precisa de encorajamento e de apoio ao nível de políticas públicas e incentivos financeiros. Esse é o caminho!”, concluiu.

O SCREEN é um projecto financiado pelo Horizonte 2020 que tem como objectivo desenvolver uma aproximação sistémica das regiões europeias à economia circular, no contexto das suas estratégias de especialização inteligentes (Smart Specialisation Strategies). São cerca de 18 as entidades públicas – entre universidades, regiões, agências de inovação, entre outras – envolvidas neste projecto, provenientes de 12 países: Itália, Espanha, Grécia, França, Bélgica, Polónia, Holanda, Finlândia, Croácia, Roménia, Reino Unido e Portugal, que está representado no programa através da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro e do Fundo Regional para a Ciência e Tecnologia dos Açores.

Veja aqui a referência de Carlos Moedas, Comissário Europeu para a Investigação, Ciência e Inovação ao SCREEN (Outubro de 2017):

 

http://www.screen-lab.eu/documents/Screen-en.mp4